domingo, 16 de janeiro de 2011

"Fui dormir perto das três da manhã, com o dia já nascido, dolorido de saudade. Dor física verdadeira, dor da falta que alguém pode fazer, da vontade de sentir e ver. Uma dor que não senti antes. Dor de prazer, de ansiedade, de querer infinitamente bem. Dor que tinha um só remédio: seguir em frente, andar rápido e atento.
Depois de dezessete dias de ausência, como celebração a um astro raro, a neblina se desfez e do leste levantou-se o sol, os raios entrando pela gaiúta de proa e batendo no fundo da cabine. Pensando bem, triste seria nunca ter sentido essa dor.
Antes de deitar, de pé sobre a cadeira de pilotagem, passei a cabeça pela gaiuta do teto. Com a metade do corpo pra fora, de cara para o sol, cabelos puxados pelo vento, gritei:
"Viva o sol, viva a dor que eu sinto.""
"Hoje entendo bem meu pai. Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio pra desfrutar do calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver. Não há como não admirar um homem-- Cousteau, ao comentar o sucesso do seu primeiro grande filme: "Não adianta, não serve para nada, é preciso ir ver". Il faut aller voir. Pura verdade, o mundo na TV é lindo, mas serve para pouca coisa. É preciso questionar o que se aprendeu. É preciso ir tocá-lo".

domingo, 9 de janeiro de 2011

"A mimosa é a árvore que representa o nosso lado feminino e revela um coração apaixonado. Aprendi muitas lições com a mimosa enquanto subia em seus galhos quando ainda era criança. Ela me ensinou a beleza que reside em se sentir feminina, enquanto suas doces flores perfumavam meus cabelos. Ela me contou o segredo dos Vaga-lumes, e me revelou que eles escondiam estrelas ainda não-nascidas em suas caudas. A mimosa contou-me que essas estrelas cresceriam dentro de qualquer pessoa de coração aberto. Elas assumiriam seu lugar entre a Grande Nação das Estrelas depois que tivessem amado e sido amadas na Terra. A mimosa me disse que as dores e traições que cada coração sofre correspondem a um punhado de água atirada sobre o fogo destas pequenas estrelas, para ver se elas continuariam a crescer, apesar da dor. As pessoas que continuavam a amar, apesar de tudo, se transformariam algum dia em estrelas, e enviariam todo o amor que haviam reunido para todos os outros seres do universo, como uma lembrança do coração aberto do Grande Mistério. A mimosa me ensinou a abrir meu coração e a amar, não importando o quanto fosse grande a minha dor, todas as vezes que eu visse minha estrela se iluminando, na forma de um vaga-lume que passasse voando perto de mim".
o sol buscando o solo
o solo buscando o sol
neste movimento
as plantas crescem

a vida brota em um sol de terra
respirando a fluidez
que constrói o caule,
de cima pra baixo, de baixo pra cima,

a coluna do que é vivo
dançando se existe.