sábado, 27 de novembro de 2010

"-- Ah, eu sou muito séria.
É nada. Tudo depende do acontecimento e tudo vai mudar quando você menos esperar. Ninguém é nada. Nós estamos experimentando de tudo nessa vida. Somos uma experiência. Pessoa é experiência com consciência de si, não é uma coisa fechada, não é uma personalidade. Todo mundo é experiência divina. Isso que é uma pessoa. O resto é estado: tudo está, está e se transforma. Nada é seguro.
-- Ah, eu sou sempre assim.
Não é nada. No dia seguinte, sua natureza faz o contrário só para irritá-la, como quem diz:
-- Não adianta. Esta segurança não existe. Deixe rolar. Não queira segurar a vida nem segurar você. Não se segure com essas imagens de eu sou, o outro é, eu deveria ser. Pode largar isso tudo. Deixe rolar: o que é, é. Viva a sua verdade, não a do outro. Você está aqui para viver você, na sua verdade, não na verdade do outro. Que coisa forte, minha gente!"

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

A verdade são tantos movimentos, tantos juntos, tão maiores e mais múltiplos do que eu. Eu danço com o corpo e isso é verdade, e às vezes o movimento do corpo parece sintonizar-se com o mundo, e então parece que tenho respostas, que é só continuar-- só que a dança é de encontros e desencontros, nos desencontros sinto-me desengonçada e muitas vezes estou fazendo a mesma dança, só que achando que erro. Se fosse desenhar um esquema de tantas verdades que formam uma verdade tantas, acho que seriam muitos círculos, muitas cores, e nem seria tão bonito, nem tão feio.
Quando existe a transição do momento de encontro pro desencontro, fico com uma sensação de ué. Meio brava porque eu achava que agora a dança ia ser só harmoniosa e era só continuar fazendo daquele jeito, caminhando por aquele caminho. E então vem a minha parceira de dança, que é a vida, que sou eu mesma e que é o mundo, e muda, eu não sei bem como. Ela quer ver o feio também, o desengonço. Também porque ela se diverte com isso e também porque a verdade é maior, né? E precisa do movimento. E o choro... Tudo movimento pra vida se divertir e chorar junto comigo, porque é através de mim que ela dança (?) e é através dela que eu danço.
Enfim... movimento sem fim só pode gerar isso mesmo,,, o feio, o bonito, o sorriso e o choro. Uma coisa que eu descobri quando comecei a fazer artes plásticas foi que todos os pintores já fizeram quadros desengonçados. Claro, eles escolheram fazer isso da vida! E vida pede desengonço. A vida pede graça e desengonço.
Quando estou na transição do desencontro pro encontro, penso: "ah sim! a vida é essa! descobri de novo". Fico querendo que a vida seja só a graça. e eu acredito, ponho fé que agora é só continuar. Faz parte acreditar que não vai ter mais desengonço, pra que quando o desengonço chegue ele seja mesmo um desengonço bem feio. Um pato pelado.

Pois é... bem vindo, pato!

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O sopro vem de baixo, do mar, da lama, da terra. O sopro é deixar-me penetrar por mim mesma, os pés vivos sentido o suporte das mãos da terra e do mar, o ar palpável que entra pela vagina e sobe para além da cabeça. Aí então é o vôo.

Inteira. Em movimento.viva. vestida com a voz que eu tenho.

domingo, 21 de novembro de 2010

Eu tenho dentes afiados e arranco pedaços da sua carne salgada pra depois cuspir, eu sou um urso e afio as minhas garras nas paredes da casa de madeira da minha infância, eu mijo em formigueiros enormes e enfio meu focinho, as picadas das formigas me alimentam.
Meu vôo é um vôo de não caber mais em mim de tanta raiva. Meu vôo grita. Eu mordo a carne do mundo, estraçalho tudo o que é ser vivente. Meu jeito de amar agora é esse, tudo é ácido e corrói-se na minha presença. Tudo é merda. Quero quebrar tudo o que precisa ser quebrado. Tenho raiva como as raízes da árvore que destrói a calçada. Tenho raiva como a formiga que pica, e o urso que derruba árvores. Quero cavar a terra com as minhas unhas, até sangrar, e se encontrar pedras no caminho, quero triturá-las com as minhas mãos.
Quero atacar todos os bichos ferozes e lutar com eles até a morte. Quero o machucado aberto de quem se fortalece. Quero urrar e preencher o mundo com este som. A lua cheia é a minha raiva.
O crescimento das plantas é a minha raiva. Quebrar o asfalto. Cuspir o cuspe ácido em tudo aquilo que constrói asfalto. Mastigar a raiva e cuspir, cuspir e quebrar com os pés com a dança que vem da vagina. Da raiva que a minha deusa tem. Cuspir todo o amor e incendiar o mundo.